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O czar naturalista e a publicidade

ANEDOTA BÚLGARA
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam
borboletas, e andorinhas,
Ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.
Carlos Drummond de Andrade

Czar, ou então tsar em russo, foi o título utilizado na Rússia para denominar imperador na época. O poema de Carlos Drummond de Andrade, se torna extremamente atual quando o trazemos sob uma perspectiva que encontramos com frequência no mundo do marketing.

Quantos czares não estão por aí espalhados em agências e empresas, com a plena certeza de que conhecem 100% do mercado, seus fatores internos, externos e o público-alvo na palma da mão. Finalizam ainda dizendo que dominam tudo graças à tecnologia e os dados que permitem saber o que seu público gosta, não gosta, o que comem e como percebem seu produto.

A beleza e a amplitude dos dados – que para mim chega a ser assustador às vezes – brilham os olhos de profissionais que pensam no lucro, no sucesso e no poder da marca. Mal lembram, ignoram e até se assustam, como o czar naturalista, quando abordam-se a existência de diversas áreas de estudos, profissionais e toda ciência envolvida que tem como objeto de estudo o ser humano e suas nuances. Se não fossemos complexos e não dependessemos de diversos âmbitos para a formação como seres humanos, qual seria o motivo de tanto estudo envolvendo antropologia, cultura e sociedade?

Parece que a cada piscar de olhos, surge um novo filme, livro, documentário ou série fazendo a mesma crítica: como a tecnologia é má, nos fazem maus, preguiçosos e tristes. Que a tecnologia não nos entende, que as pessoas estão loucas e assim vai. O fato é que sim, muita gente ainda não entendeu como usá-la da maneira correta para impactar a sociedade de uma forma positiva, mas não é sobre isso que quero falar.

Os dados não são maus, são apenas dados. E o que estou falando não é sobre a finalidade destes dados, mas sim em como é usado. Já escrevi um outro artigo (que não está aqui e vou reciclá-lo em breve), sobre a famosa frase de Peter Drucker: “A cultura devora a estratégia no café da manhã”. É muito comum observarmos em agências, principalmente de pequeno e médio portes, como do tamanho da Orbis, prometerem resultados por meio de anúncios online para o público-alvo, vendas, leads qualificados, conversões, etc. E por conta disso, vemos clientes, muitas vezes traumatizados por outras agências que enchiam a cabeça deles com inúmeras promessas de “trago leads qualificados em 3 dias”. O mundo já está acelerado o suficiente, já somos tão imediatistas que estamos à base de ansiolíticos. Então para que prometer coisas que você pode não conseguir cumprir?

E voltamos onde falo sobre lucro e poder. Tanto as agências quanto os clientes querem isso, afinal quem não quer? Mas do que adianta ignorar processos que não merecem ou não devem ser pulados, construir uma base de seguidores ou leads extremamente frios e difíceis de converter? Tudo por alguns reais por dia. Onde paramos de analisar dados e entendemos o real cliente? Em qual momento olhamos pelos olhos do cliente e entendemos como ele reage ou interpreta as coisas? Hoje, os anunciantes acreditam que todos podem ser resumidos a alguns interesses e alguns comportamentos que os gigantes da tecnologia entregam.

Dados são importantes? Não só importantes, mas hoje já é impossível viver sem. Mas sem a interpretação, sem entender a vivência, sem debater sobre a criatividade e entender o que o ser humano quer em sua essência, continuarão aparecendo cada vez mais clientes insatisfeitos e agências com alto número de rotatividade de clientes e que baseiam seus processos em um modelo de produção fordista.

As agências e empresas são os czares naturalistas lá de cima, caçando o que todos caçam porque é bonito e porque é fácil. E assim ficam para trás a criatividade, a discussão e o crescimento de marcas sustentáveis e prósperas. Afinal, em essência, somos agências de comunicação, e não de dados. Pelo menos nós somos.

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Vinicius Donderi
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